Repetida a via Place of Happiness, 8º IXa, 850m

17 set, 2010 | Notícias, Relatos, Vídeos e Fotos

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Os cariocas Daniel Araújo, Fábio Muniz, Flavio Daflon, Martino Singenberger e Silvio Neto fizeram a primeira repetição da via Place Of Happiness, na Pedra Riscada, em São José do Divino – MG. Foram dois dias de escalada para superar os 850 metros desta via, que está cotada em IXa.

Place of Happiness foi aberta pelo paranaense Edmilson Padilha, pelo argentino Horácio Gratton e pelos alemães Houlger Heuber e Stefan Glowacz em 2009. Para quem não conhece Glowacz foi um dos pioneiros da escalada de grande dificuldade e um dos campeões do prestigiado Campeonato de Arco e tem repetido e aberto vias pelos sete continentes. Veja aqui a matéria e fotos da conquista no site da Companhia da Escalada e no site da RedBull. Um vídeo sobre a conquista também pode ser visto abaixo.

Os cinco escaladores cariocas viajaram 700 km no sábado, dia 31 de julho para fazer a primeira repetição dessa belíssima via mineira.

No domingo começaram a escalar por volta das 10 da manhã. Subiram dez enfiadas, encoradaram as mais difíceis e desceram para dormir próximo a base. Na segunda descansaram. Na terça-feira começaram a escalar as 6:30h da manhã e as 9:30h alcançaram o ponto mais alto da investida anterior. Chegaram ao cume as 17:30h. Foram 18 enfiadas com as graduações seguintes: IV, IV, IV, IV, VIIa, IV, VIsup, VIIIc (VIIa A2), IXa (VIIa A2), VIIIb, IXa, VIIb, VIIIa, VIIa, VIsup, VI, IV e IV. Essa foi a primeira repetição da via, já que duas tentativas anteriores de outras cordadas desistiram por motivos diversos. Um empolgante relato de uma dessas tentativas pode ser lido aqui. (17.09.10)

Veja o vídeo desta repetição da via:

E o vídeo dos conquistadores:

Abaixo veja o relato feito pelo escalador Silvio Neto e a galeria de fotos!

PLACE OF HAPINESS (Por Silvio Neto)

Quando um escalador de renome internacional abre uma via de qualidade em qualquer que seja o local do planeta, é certo que as informações a respeito chegarão aos quatro cantos do mundo. Quando Stefan Glowacz, com sua tenacidade e vitalidade infinita, passou pelo Brasil no inverno de 2009 não foi diferente. Numa equipe que também contava com Edmilson Padilha, Horacio Gratton, Klaus Fegler e Holger Heuber; o lendário campeão mundial conquistou a via “Place of Hapiness” na aresta norte da Pedra Riscada, o maior monolito do Brasil. O resultado foi uma dessas linhas Classe A. E como não podia deixar de ser as notícias pós-conquista logo chegaram aos confins do planeta, mais precisamente à Suíça, ou melhor dizendo, ao meu camarada suíço Martino. Foi ele o primeiro a botar lenha nessa fogueira, de fato ele propôs a própria fogueira. E onde há fogo… La fomos nós rumo à Pedra Riscada. Martino, eu, Daniel Araujo, Flavio Daflon e Fabio Muniz. Uma equipe grande para um grande intento!

A Pedra Riscada fica no município de São José do Divino a cerca de 120km de Governador Valadares, em Minas Gerais e a aproximadamente, 700km do Rio de Janeiro. De Divino até a base da parede são duas as opções de trajeto com distintos panoramas da montanha; ambos caminhos possuem cerca de 30km de estrada de terra. Essas estradas passam em meio a fazendas e currais; sendo possível observar o visual das muitas formações ao redor. Um verdadeiro mar de morros.

Em São José do Divino a atração maior é o virtuoso Edmilson Duarte. Nosso camarada Edmilson é o cara da cidade e merece um parágrafo a parte. Nascido e criado em Divino, Edmilson passou um período de 16 anos vivendo na América, como ele mesmo se refere aos EUA. Quando retornou trazia consigo um grande repertório de composições e músicas de qualidade. Logo vieram os cds gravados e fama internacional, afinal Divino é gringa, uai! É de lá que sai o maior fluxo de brasileiros rumo aos EUA, sendo assim reafirmo, Edmilson tem fama internacional; e se você não o conhece corre pro Google. De fala tranqüila, muitas em inglês, e sempre acompanhado de uma caninha, Edmilson é de fato o melhor cicerone e anfitrião que poderíamos imaginar. Foi um grande prazer a todos nós vir a conhecer este artista de grande potencial escondido entre as montanhas do Vale do Mucuri.

Na manhã seguinte a que chegamos em Divino nos encaminhamos à base da parede com a ajuda do amigo local Marcel, que mesmo passando um frio danado e ficando sem combustível para sua moto, foi incessantemente solícito e prestativo conosco, levando-nos até bem próximo do local que por fim nos instalamos.

Nossa equipe era grande, estávamos em cinco, logo algumas seriam as opções de ascensão. A decisão de como escalaríamos foi se esclarecendo conforme atrasávamos. Ao menos tínhamos cinco cabeças determinadas e um foco: mandar a via.

Place of Hapiness é uma via exigente. São 850m de rocha repartidos em 18 enfiadas em sua maioria cheias. A via em si divide-se em quatro partes. Um tramo inicial formado por quatro enfiadas bem semelhantes; todas na casa do IV, caracterizadas por um granito escuro não tão sólido. Na quinta enfiada, um lance isolado de VII e na seqüência um runout de quase 20m levam ao platô, ou a uma queda inesquecível com vista panorâmica do seu parceiro na parada e em um muito breve instante, você passando por ele. Acho que deve ser mais ou menos assim. Graças a Deus eu nem lembro!

Desta forma chega-se ao Platô do Rato, nome que demos ao platô que dá fim a primeira parte da via, onde um ratinho gorducho vivia perambulando quando caía a noite. A partir daí vem a segunda parte, e acredito eu, a parte mais demorada da via. É formada por três enfiadas, todas protegidas em móveis e raras chapeletas intermediando lances longos e bem comprometidos. A primeira das três enfiadas dá acesso ao grande diedro, parte central da via. A rocha neste setor é bem clara, e bem desconfiável. A ascensão das enfiadas que compõem o diedro, ambas cotadas em IX A2, tanto em artificial como em livre demandam tempo e meticulosidade por parte do guia. Ao fim desta parte abandone toda e qualquer proteção móvel que tenha levado e “faca na caveira!”, já que a partir de agora o trabalho é árduo, físico e psicológico.

A terceira parte da via é o crux. São cinco enfiadas sustenidas ligeiramente negativas, de fato o filé da via. Este trecho é uma aresta alaranjada onde há muitas opções de agarras, entretanto a maior exposição dos lances e agarras muitas delas por quebrar, elevam a concentração, se é que me fiz entender. Após essa surra sem dó, se ainda houver forças, alcançar o cume será uma questão de pura perseverança. O nível técnico cai gradativamente e as últimas enfiadas voltam a lembrar o início da via, isto é, granito preto, agarras quebradiças e escassez de proteções. Delicadeza e astúcia para escalar em agarras que se desfazem é a chave para o sucesso neste trecho final. Daí pro cume!

Do cume o visual é fantástico! São tantas as montanhas que podemos mirar ao redor… incrível! E lá em cima, curtindo o lindo visual avermelhado do pôr do sol, nós, a equipe toda reunida numa harmonia, numa engrenagem imprescindível para o êxito coletivo na escalada de grandes paredes. Primordial é o foco, e esse nós tínhamos. Estratégias são muitas, mas numa escalada a estratégia é que nem pênalti. Demorada ou ligeira, leve ou pesada, não importa. Estratégia bem feita é a que resulta em gol, e no nosso caso especificamente, em cume! Já dizia um desses boleiros filósofos: não existe gol feio; feio é não fazer gol!
O cume portanto era nosso foco, nosso gol, e lá nos encontrávamos após três dias naquela montanha. No primeiro dia iniciamos tarde, subimos ao máximo e descemos encordando as enfiadas mais complicadas. No segundo, descanso. E no terceiro dia base – cume – base, numa jornada de 21hs ininterruptas de atividade neste último dia. Puxado e cansativo é pouco!

Vale lembrar que a partida não acaba por aí. Os rapéis também tem seus cruxs. Atenção redobrada para as enfiadas em diagonal e ligeiramente negativas da parte central da via.

Para repetir a via o equipamento necessário são: 20 costuras, 2 jogos de friends incluindo micros e 1 jogo de stoppers incluindo os micros. Pitons também podem facilitar a primeira enfiada do diedro, apesar de não termos levado. Duas cordas são imprescindíveis aos rapéis, além de material de abandono para os mesmos. No mais, gana, sorte e uma equipe determinada como a nossa são fundamentais!

Para comer e ficar em São José do Divino: Pousada e Restaurante Colibri de Ouro. O anfitrião Domingos faz com que todos sintam-se em casa. Rango típico nota 10, cervejinha gelada e varandão para matar a leseira. Contato – Tel. (33) 3582-1403 ou (33) 8883-9727.

Para tudo e ainda mais em São José do Divino: Edmilson Duarte Contato – Tel. (33) 3582-1121 ou 8856-2111.

Apoio: EDELWEISS – VERTICALE.

Daniel Araújo (Rocks in Rio)
Fábio Muniz (Equinox)
Flavio Daflon (Companhia da Escalada, Equinox e Edelweiss)
Martino Singenberger (Verticale e Edelweiss)
Silvio Neto (Lá em Casa, Equinox e Osklen)

Fotos: Flavio Daflon, Silvio Neto e Daniel Araújo.

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