Orientação e escalada, tudo a ver.

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Artigo publicado na Revista Fator2 nº 5 em Junho de 1999.

Estamos acostumados a associar as técnicas de orientação à prática da caminhada e não da escalada, o que faz com que coisas como bússola, mapa, GPS, etc. normalmente passem longe dos escaladores. No entanto, há um detalhe relativo à orientação que, se bem observado, pode evitar umas boas ‘roubadas’ na parede: trata-se do entendimento da posição do sol no decorrer do dia.

Para aqueles que escalam e não entendem muito bem o movimento do sol aqui vão uns toques que podem ajudar!

Suponhamos que o objetivo, por exemplo, seja escolher uma via que esteja na sombra durante a parte do dia em que você estiver na parede. Assim sendo, a via deve estar na face oposta à face iluminada pelo sol naquele horário. Mas como saber qual a direção do sol em cada horário?

É preciso então ter em mente dois princípios básicos:

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Figura 1

1) Para nós que estamos no hemisfério sul, a trajetória do sol descreve no céu um ‘arco’ tombado sempre para o norte. Isto significa que, entre o nascente e o poente, ele vai percorrer, de leste para oeste, todas as direções do quadrante norte. Então, pode-se considerar aproximadamente que às seis da manhã ele está a leste (E), às nove a nordeste (NE), ao meio-dia ao norte (N), às três da tarde a noroeste (NW) e às seis da tarde a oeste (W). A fig. 1 ilustra a projeção dessa trajetória sobre o chão, supondo que você (ou a montanha que vai ser escalada) esteja no centro do “+” que contém as quatro direções principais. Dessa maneira, quem estiver na parede por volta das três da tarde, por exemplo, deverá procurar uma via na face SE da montanha, pois o sol estará na face oposta, isto é, a NW.

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Figura 2

2) Este ‘arco’ vai sendo deslocado mais para o norte ou para o sul conforme as estações do ano. A rigor, a situação da fig. 1 só ocorre em dois dias do ano – os chamados equinócios -, que são geralmente os dias 21 de março e 21 de setembro, que marcam o início do outono e da primavera. A partir de 21 de dezembro essa trajetória ‘caminha’ para o norte, culminando aproximadamente no dia 21 de junho, entrada do inverno, quando está o mais ao norte possível (fig. 2a).

A partir daí caminha sempre para o sul, até que no dia 21 de dezembro seguinte, entrada do verão, está o mais ao sul possível (fig. 2b). Daí ela volta a caminhar para o norte, e assim por diante.

Qual a consequência deste vai-e-vem da trajetória? É que a relação entre a direção do sol e as horas do dia se altera um pouco conforme a época do ano. E estas alterações vão ser tão maiores quanto maior for a nossa latitude.

orientacaoFoto aérea tirado ao meio dia sobre o Pão de Açúcar. Aqui na latitude do Rio, durante poucas semanas antes e depois do dia 21 de dezembro o sol passa o dia inteiro no quadrante sul, embora o arco da trajetória continue ‘tombado’ para o norte, como mostra a fig. 2b. Isto significa que, nessa época, a famosa afirmação ‘a face norte está sempre no sol’ passa a não valer mais, e vias como o Lagartão e a Tragados Pelo Tempo, localizadas em faces sul, estarão o dia inteiro no sol.

No entanto, durante o resto do ano a trajetória do sol será mesmo predominantemente pelo quadrante norte, fazendo valer a regra inicial. Esta situação típica é mostrada na foto aérea aqui reproduzida, tirada ao meio-dia sobre o Pão-de-Açúcar: o sol está exatamente na direção norte, fazendo com que todas as vias da face sul estejam na sombra. A partir dessa hora a face leste começará a entrar na sombra (bom pra fazer o Costão) enquanto as vias da face oeste começarão a receber sol. Note que o mesmo só não acontece com a face sul do Morro da Urca porque a parede é muito pouco inclinada e o sol, mesmo estando na face oposta, a ilumina por cima do cume da montanha.

Boas escaladas!

Texto de Flávio Wasnieski.

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