Pontos de Apoio

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Evitar o uso de pontos de apoio artificiais tem sido um constante tema de debates em nosso círculo de escaladores, uma vez que a escalada em livre é um dos objetivos mais evidentes contidos no conceito de escalada natural. Mas o que realmente vem a ser “escalar sem pontos de apoio”? Ou, em outras palavras, como poderíamos definir com precisão o que é escalada livre?

Na moderna concepão do esporte significa não se utilizar, de forma alguma, dos pontos de segurança (grampos, pitons, nuts, cunhas etc.) para auxílio direto na progressão do escalador, reservando-os apenas para proteção caso uma queda venha a ocorrer. Isso implica não pisar nem segurar neles, tanto para impulso quanto para equilíbrio, em ascensões que se digam como sendo em livre. Dentro desse conceito, descansar em um grampo também é uma forma de usá-lo como apoio, pois assim a continuidade de dificuldades, sem a presença de locais naturais de repouso – platôs, lacas, depressões e saliências de porte na rocha –, estará sendo quebrada, e esse é um dos fatores preponderantes na determinação do grau de uma via, a ser assumido por quem se dispuser a fazê-la em livre.

Mesmo que após descansar o escalador retome a sua posição original no lance para o reinício da ascensão, ainda assim estará usando um ponto de apoio, pois terá se valido de um artifício para dividir uma seqência de dificuldades em “n” partes, tornando-a obviamente mais fácil enquanto menos extenuante. Em outros países isso é chamado de aid-rest (descanso com apoio), e as passagens assim executadas são classificadas como sendo de A-0, pois encontram-se a meio caminho entre ascensões em livre puras e os artificiais convencionais.

A exceção evidente a esta regra corre por conta das paradas no final das enfiadas de corda onde não hajam locais naturais de repouso, ou no hands rests, se usarmos uma vez mais a terminologia empregada no exterior. Mas a prática nos mostra que tais casos são raros, e que a negativa a esta afirmação decorre do fato de que o nosso sistema usual de proteção, centrado em grampos fixos de altíssima resistência, permite a parada em virtualmente qualquer ponto da escalada, sem que se tenha que buscar, necessariamente, um desses locais naturais de repouso para descansar e trazer o participante.

Um exemplo concreto: há uma seqüência de lances no Paredão Soleil, entre o seu primeiro platô e um óbvio buraco (locais de parada naturais) que, se feita em livre de forma contínua, terá uma dificuldade. No entanto, se for repetida descansando-se em cada grampo, ou dividida em duas ou mais enfiadas de corda por meio de paradas forçadas, então sua dificuldade será inteiramente diferente daquela.

E quando o escalador cai? Ao voltar à sua última costura para se recompor não estará ele usando um ponto de apoio artificial para descanso? Sim, pois a queda significa que ele falhou em sua tentativa de subir em livre aquele trecho. Deriva diretamente deste fato um estilo de ascensão muito popular em todo o mundo conhecido como “iô- iô”, onde o escalador, após cada queda, retorna ao seu último no hands rest (literalmente, ponto de descanso sem as mãos) e dali recomeça toda aquela seqência de lances, visando fazê-la de forma contínua.

Conhece-se casos de cordadas que consumiram mais de um mês de tentativas em iô-iô até conseguiram, finalmente, fazer em livre uma determinada enfiada de corda de dificuldade extrema. A opção para este fanatismo seria usar os apoios e assumir que não foi possível fazer em livre aquela via.

Outra dúvida que constantemente surge é se o escalador está usando um ponto de apoio quando segura em um grampo apenas para costurá-lo. Certamente que sim, pois isso além de ser uma forma de descanso, especialmente após lances de agarrinhas, freqüentemente serve como meio de se recuperar o equilíbrio perdido ou abalado após um lance difícil.

Repetir escaladas evitando o uso de pontos de apoio artificiais é um caminho rápido, seguro e eficiente para o aprimoramento técnico individual. Permite também que velhas vias conquistadas total ou parcialmente em artificial subitamente voltem a despertar interesse, para ver se é possível se “eliminar” (evitar) os pontos de apoio até então existentes. Essa prática tem como consequência direta uma elevação substancial no nível geral de habilidade dos escaladores, e faz com que certas vias sofram drásticas mudanças de dificuldade. Por exemplo: o Paredão Baden Powell, de acordo com a concepção tradicional, é classificado como 4o IVsup, mais um pequeno cabo de aço (C). Se feito inteiramente em livre (cabo de aço inclusive) no entanto, seu grau pula para 5o VIsup se os mesmos parâmetros de avaliação forem utilizados, no caso os propostos pela Federação de Montanhismo do Estado do Rio de Janeiro – FMERJ em 1975.

Isso em absoluto não significa que todos devam escalar dessa forma, pois a total liberdade de ação, fruto da escolha pessoal, é uma das principais características de nosso esporte, desde que terceiros não sejam prejudicados como no caso de grampos instalados para substituir dificuldades. Mas não é demais pedir que relatos de conquistas e repetições de vias já estabelecidas sejam precisos nesse aspecto, para que se possa avaliar corretamente a dificuldade de cada via e haver uma padronização da nomenclatura específica, reservando o termo “escalada livre” para aquelas que realmente o forem.

Texto de André Ilha lido durante o I Encontro Brasileiro de Montanhismo, ocorrido em setembro de 1983 na cidade de Teresópolis, na sede do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, e depois distribuído amplamente em versão impressa com um texto subsidiário, cujo título é “Pontos de Apoio”.

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