A Múmia da Gallotti

Patrick White na segunda enfiada da Gallotti. Foto arquivo CEC/Ivan Calou.

Patrick White na segunda enfiada da Gallotti. Foto arquivo CEC/Ivan Calou.

Dois anos após a inauguração do CEPI em 1952, foi finalizada a quarta via para o cume do Pão de Açúcar, a Chaminé Gallotti, no Totem, no lado oposto de onde se encontra a Chaminé Stop. Desenhada num intrincado sistema de fendas, formada por uma sucessão de platôs, chaminés estreitas, entalamentos de corpo e oposições, a Gallotti foi conquistada utilizando-se 42 grampos por cinco escaladores do Clube Excursionista Carioca. São eles: Tadeusz Hollup, Antônio Marcos de Oliveira e Ricardo Menescal, juntando-se posteriormente ao grupo Patrick White e Laércio Martins.

A Múmia da Gallotti. Arquivo CEC/Ivan Calou.

A Múmia da Gallotti. Arquivo CEC/Ivan Calou.

A história desta longa via contou com um episódio insólito e sinistro. Segundo nos informou Tadeusz Hollup, tudo começou na primeira caminhada que fizeram para encontrar um possível início para a via, quando ele encontrou um sapato e, em tom de brincadeira, disse: “Acho que iremos encontrar o dono desse sapato”. Dito e feito, era setembro de 1949, estavam conquistando o segundo lance da via e encontraram um cadáver entalado pela garganta em uma fenda e descalço.

O escalador que guiava aquele lance ainda deu segurança para que seu participante chegasse até ele.

A Múmia da Gallotti. Arquivo CEC/Ivan Calou.

A Múmia da Gallotti. Arquivo CEC/Ivan Calou.

Em um primeiro momento pensaram ser o cadáver de uma mulher devido ao longo cabelo, porém depois repararam que havia barba e portanto seria de um homem. Os dois resolveram descer e chamar a polícia. No mesmo dia comunicaram o caso na delegacia de Botafogo e combinaram o resgate do corpo para o dia seguinte. “Durante a noite e madrugada recebi alguns repórteres que queriam saber da múmia”, conta Tadeusz.

Conquistadores da Gallotti: Patrick White, Laércio Martins, Ricardo Menescal e Tadeusz Hollup. Arquivo CEC/Ivan Calou.

Conquistadores da Gallotti: Patrick White, Laércio Martins, Ricardo Menescal e Tadeusz Hollup. Arquivo CEC/Ivan Calou.

Na década de 40, ainda não havia a pista Cláudio Coutinho e os escaladores tiveram um pouco de trabalho para levar os bombeiros, o legista, o delegado e repórteres à base da via. O corpo, que deveria estar ali há vários meses, foi descido pelos próprios escaladores com uma corda. “Era esqueleto puro, apenas com a pele ressecada por cima”, lembra Tadeusz. Segundo o legista, a pessoa era um homem, mas não foi possível identificá-lo. Mesmo com as fotos publicadas nos jornais, ninguém se manifestou. Assim o corpo deste homem ficou conhecido como a Múmia da Gallotti. Ele não acha possível que uma pessoa pudesse cair do cume e parar naquela posição na chaminé, logo no início da via. Portanto o mistério perdura…

Um fato curioso é que havia uma favela entre o Morro da Urca e o Pão de Açúcar, virada para o lado de onde está hoje a Pista Cláudio Coutinho. Esta favela foi removida posteriormente pelos militares, pois estava alastrando-se e começava a avançar para o cume do Morro da Urca.

Saiba mais no Guia de Escaladas da Urca.

Texto: Flavio e Cintia Daflon.

Escaladas em Arenales, Argentina, por Fábio Muniz

Em 2006 estive em Bariloche, na Patagônia Argentina para um projeto de escalada esportiva e uma passagem pelo Frey (escalada móvel). Meu intuito nesse período era desenvolver a escalada à vista nesse estilo, quando nessa então passei um décimo grau, além de conhecer e aprender muito nas escaladas das típicas fendas das Agulhas Frey. Os locais que conheci são lindos e me fizeram querer voltar muitas vezes!!

arenales-02

A Agulha Spina (esquerda) e Astila (direita) .

No ano seguinte já se ouvia falar bem de outro lugar perto de Mendoza, com mais aspecto de montanha, chamado Arenales. O notório grande número de brasileiros que ia com grande freqüência para o Frey passou a também ir para este lugar, trazendo grande empolgação. Desde essa época fiquei curioso… acho que inconscientemente guardava essa vontade de viajar para o exterior para escalar nesse estilo. Tenho me dedicando mais às escaladas de parede e em móvel por aqui e percebo que tenho desfrutado mais. Então, depois da ‘pilha’ dos amigos, voltar para Argentina para escalar no CAJON DE LOS ARENALES, seria muito natural! Continuava o prazer das escaladas à vista com o ‘plus’ de serem em móvel e em paredes maiores! Então fomos eu e minha namorada Carol Marteleto, agora no início do ano, fevereiro, na expectativa de que ainda podíamos contar com o bom tempo do final da temporada.

arenales-03

O Campanille Alto (esquerda) e Charles Webis (direita), vistos do refúgio.

Assim como Bariloche, a região de Mendoza desperta interesses naturais e culturais. Atualmente é considerada uma das melhores produtoras de vinhos da América do Sul. O clima é agradável e com escassas chuvas. A altitude e os solos pedregosos propiciam o plantio das melhores variedades de uvas finas do mundo! A gastronomia local e a visitação das bodegas atraem muitos turistas… ou seja, vale a pena passar um tempinho curtindo isso também.

arenales-04

Primeiras vias dentro do cajon: Agulha Carlos Daniel, com Danilo escalando a via de mesmo nome.

arenales-01Tons belíssimos de rocha em Los Arenales. Voltando as escaladas, não tão conhecida quanto o Frey, Chalten e outros locais de escalada de lá, Arenales consegue reunir o que estes dois paraísos tem de melhor: fendas estéticas e técnicas, boa dose de logística nas aproximações e no rapel, além da orientação nas vias exigir um bom faro montanhístico por conta do escalador. Lá é preciso lidar com caminhada em cascalhos sem um caminho relativamente definido, escolha das faces que tocam mais sol, algumas vias com muitos blocos soltos além de uma quantidade de linhas de fendas, agulhas e corredores que se cruzam. A impressão que se tem ao chegar no meio do canion é que todas as montanhas são “meio” que uma parede só… só se vai descobrir as perspectivas, os vales, os corredores e as agulhas, quando se dirigir para perto. A flora e fauna são particulares: lagartos com cores fortes, chinchilas, condores, algumas flores bem bonitas e, muitos, mas muitos espinhos. A variedade dos tons de cores da rocha, que vão do amarelo suave ao rosa, são bem bonitos também. A movimentação que se mescla bem entre entalamentos, oposições e diedros, torna tudo muito instigante! Procurando boas linhas, ainda há uma quantidade razoável de possíveis vias para se conquistar.

Depois de ter passado uns dias em Mendoza, descansando um pouco da viagem de ônibus desde Buenos Aires e definindo o que comprar de mantimentos, fizemos contato com Yaguar, pessoa bem conhecida do local que leva o pessoal de carro até bem próximo do refúgio. Encontramos ele em Tunuyan e fizemos uma viagem calma, conversando bastante sobre muita coisa: desde sua vida, a escalada e os brasileiros que conhecia… falou até um pouco sobre seu envolvimento com teatro e política na época da ditadura na Argentina.

arenales-05 arenales-06
arenales-07 arenales-08
arenales-09 arenales-10

Fauna e Flora andinas.

arenales-11Estávamos somente eu e minha namorada Carol, querendo chegar logo e encontrar possivelmente outros brasileiros ou conhecer outros escaladores locais, para pegar boas infos e escalar muito! Logo de cara Abrigo.ninguém no local e tempo meio feio! Ficamos acampados em frente ao refúgio, uma construção que já está um pouco precária. Ali é onde se tem a alternativa de cozinhar, conversar e relaxar um pouco. Existe também a possibilidade de se dormir ali, mas não parece muito limpo… inclusive questões de higiene e alimentação são enfatizadas: a comida deve ser pendurada dentro do refúgio em função dos ratos e existem pás pra se enterrar as fezes. A parte cômoda é que logo ao lado passa o rio, relativamente forte e gelado, aonde podemos pegar água para cozinhar e tomar banho.

No dia seguinte o tempo piorou, mas vimos que havia gente. Eram dois brasileiros de Brasília que já estavam ali há um tempo. Disseram que tiveram pouca sorte. Ironicamente o tempo ficou bom no dia que eles estavam indo embora. Mesmo assim eles foram bem amistosos e nos levaram antes na Parede de Mítria, aconselhando uma boa via chamada El Condor Passa. Esse local, com as paredes de Mítria (predominando vias Agulha Nuez – Mujeres y Tequilaesportivas) e Muralha Central (mesclando móvel e esportivas) fica logo antes da entrada do cânion, em frente ao controle de fronteira (Gendarmeria). É interessante mencionar que, partindo dali, há passeios a cavalo até o Chile, que está bem próximo! Bem, o clima estava totalmente diferente: sol, calorzinho e vento seco, que só na sombra se arenales-12percebe que é frio… e notamos como era bem possível escalar confortável nessas condições. O sol, a luz do sol e a percepção de calor fizeram uma boa diferença pra mim. A temperatura da pedra e a parede toda iluminada dão uma grande confiança pra quem não está acostumado… com o tempo, apreendendo a poupar energia se abrigando, se alimentando em pequenas quantidades, e não parando muito nas reuniões, as situações de clima ruim trabalham a calma de focar mais na escalada, no parceiro e menos no próprio desconforto físico.

Partindo pra caminhar no dia seguinte com alguns planos na cabeça, tivemos dificuldade com o clima e com as indicações do guia quando fomos pra agulha Nuez, escalar a via Murejes e Tequila. Estava bem enevoado e nem encontramos a base da via direito. A idéia então foi retornar para paredes abaixo: Mitria e Muralha Central.
A escalada nessas duas paredes foi entremeada com nossas idas para as agulhas do Canion, em função de dias de recuperação ou tempo meio instável. A rocha é bem sólida e em algumas partes até brilhosa de tão lisa. Fizemos boas vias em um setor com vias negativas e destacamos na Mítria a via Rosso de Serra Bela escalada em Los Arenales(proteções fixas), com o terceiro e quarto esticões verticais de cor rosa inconfundível, e na Muralha Central a via Patrícia (móvel com paradas fixas), com entalamentos perfeitos no primeiro esticão e escalada variada até o final. Ambas de nível médio com esticões de 6º.

Alguns dias depois chegaram outras pessoas e mais dois brasileiros, os paulistas Danilo e Igor. Eles já tinham ido lá mais vezes e nos deram boas dicas, vindo a fazer boas cordadas mais adiante. Reformulando as idéias de “o que era o que” e aonde levaria aonde” partimos novamente para Mujeres e Tequila. Depois de passar pelo primeiro e segundo esticões com uma linha sem boa definição e de rocha ruim, vem o que buscamos desde a arenales-13base: dois esticões de diedros técnicos positivos com visual que recompensa a chegada até ali! Apesar de não ser o cume da agulha, o visual é amplo e se pode ver bem a esquerda além do ‘cajon’!
Começando a aclimatar as pernas, a leitura das agulhas e vias, e o modo de escalar, fomos para via Carlos Daniel com os paulistas. Via regular, de tamanho médio, com alguns, porém bem definidos trechos de rocha instável. Foi uma das vias que mais gostei! Fica no final do cânion, mais precisamente no ‘tapon’ (cascalho que escorre das montanhas dos dois lados fechando o cânion). Tem um esticão de sexto bem legal: fendas paralelas onde, em uma se escala, em outra se protege e “na terceira” nem se toca… tudo na mesma linha… hehe. Cume definido, pequeno e com visual de 360º; e o mais legal pra gente que ainda não tinha subido para as vias do Campanille alto: poder ver com relativa definição os corredores e as agulhas de cima!
Carol guiando.

Novamente tivemos dois dias de tempo ruim… e a vontade de subir pras agulhas mais altas ia aumentando. Mas antes disso eu queria ver como me sairia em vias mais difíceis e técnicas na Muralha. Aproveitando a vontade do Danilo e Igor de conhecer a via Cinemacope, com esticões de 7º e 8º, fomos assim que o tempo melhorou. A via é show: aérea, rocha sólida com boas e constantes colocações, contínuos entalamentos e quedas limpas em quase 100% da via. Podemos destacar o segundo esticão de 8º bem vertical e a travessia técnica de 6ºsup de baixo de um teto no antepenúltimo esticão. É interessante mencionar que existem ainda vias esportivas suavemente negativas acima de 9º, ao lado e na mesma parede, sendo variantes e independentes.

arenales-14O tempo corria entre dias de descanso, caminhadas curtas e então finalmente planejamos subir para as agulhas Charles Webis e Campanille alto. Apesar de a maioria das vias ali serem de seis esticões, tomava-se um tempo na aproximação e descida. A idéia foi escalar e deixar o equipo ‘malocado’ Típicos platôs.(guardado), boa estratégia que é feita comumente pra subir leve no dia seguinte ou alguns dias depois. Estava com a via Panqueques com dulce de leche na cabeça, que foi sugerida por amigos do Rio. Dessa vez sugeri aos paulistas que acharam a idéia interessante. Como fomos em três, o peso foi um pouco mais reduzido, e a caminhada, que é um pouco instável devido aos cascalhos e pedras soltas, foi razoável. Depois de passar pelo corredor principal que leva as duas agulhas, tem-se uma boa noção da parede.

arenales-15A via já começa bastante vertical, exigindo atenção na escolha da linha; um ótimo 6º variado. O segundo esticão começa tranqüilo e da metade pra cima vem o supra sumo da via: um 7º vertical, de insubstituíveis entalamentos de mãos e pés. A via tem outros trechos bem verticais e aéreos acima, com a agulha Campanille alto logo ao lado! Pude aproveitar bastante essa via e fiquei bem seguro quanto as minhas condições físicas e psicológicas. Danilo e Igor também estavam se aclimatando e se preparando para outras vias. Terminamos a via motivados pra escalar no dia seguinte!.. iríamos descer leve, cedo e com calma. No refúgio, Carolina estava curiosa pra saber como tinha sido. No dia seguinte estávamos planejando ir pra via Armônica.

Com a visão do Campanille alto, a impressão que tive da parede era que a via seria curta… mas sabia também que teria ‘zig-zags’ e platôs, que tomam tempo. Fizemos a caminhada com bom ritmo e tempo ótimo. A maioria dos esticões gira em torno de 5º com algumas passagens mais técnicas. No final do primeiro terço da via o tempo nublou, mas não fez frio. À medida que subíamos percebia que Carol estava indo bem e isso me tirava um pouco da apreensão. Faltando três esticões já estávamos curtindo bem! Carol mandou tranquilo o esticão chave de 6º e aí era só ‘ir pro abraço’… literalmente… (risos). Fomos presenteados com o rapel no sol, com o único empecilho de prender a corda justamente na primeira descida. O restante foi sem problemas. Na caminhada de volta vimos o por de sol mais bonito da viagem!

arenales-16Bem, foram ao todo 20 dias. Apesar de começarmos a aproveitar mesmo o local a partir do décimo dia, e ficarmos no gostinho de escalar mais as agulhas mais altas, o balanço geral foi muito bom. Além da escolha das vias terem sido na maioria das vezes proveitosa, foram muitas caminhadas relaxantes e maneiras, muitos banhos (mas muitos mesmo!.. tem gente que não consegue.. rsrss) gelados ao sol, algumas granolas especiais e comidas liofilizadas que nos foram deixadas e, é claro, ter a oportunidade de conversar com gente da Colômbia e da Argentina.

De vez em quando ficamos sabendo de grandes locais pra se escalar na América do Sul. Muitos estão sendo desenvolvidos recentemente aqui no Brasil, na Argentina, no Perú, na Venezuela, etc. É importante salientar esse valor! Em locais como o que estivemos fica sempre germinando a vontade de voltar… pra repetir boas vias e entrar em muitas outras! Termina a temporada de lá, começa a de cá!

arenales-17

Agradecimento especial aos apoios: Equinox, Verticale e Edeweiss.

Fábio Muniz.  (09.05.11).

Repetida a via Place of Happiness, 8º IXa, 850m

Os cariocas Daniel Araújo, Fábio Muniz, Flavio Daflon, Martino Singenberger e Silvio Neto fizeram a primeira repetição da via Place Of Happiness, na Pedra Riscada, em São José do Divino – MG. Foram dois dias de escalada para superar os 850 metros desta via, que está cotada em IXa.

Place of Happiness foi aberta pelo paranaense Edmilson Padilha, pelo argentino Horácio Gratton e pelos alemães Houlger Heuber e Stefan Glowacz em 2009. Para quem não conhece Glowacz foi um dos pioneiros da escalada de grande dificuldade e um dos campeões do prestigiado Campeonato de Arco e tem repetido e aberto vias pelos sete continentes. Veja aqui a matéria e fotos da conquista no site da Companhia da Escalada e no site da RedBull. Um vídeo sobre a conquista também pode ser visto abaixo.

Os cinco escaladores cariocas viajaram 700 km no sábado, dia 31 de julho para fazer a primeira repetição dessa belíssima via mineira.

No domingo começaram a escalar por volta das 10 da manhã. Subiram dez enfiadas, encoradaram as mais difíceis e desceram para dormir próximo a base. Na segunda descansaram. Na terça-feira começaram a escalar as 6:30h da manhã e as 9:30h alcançaram o ponto mais alto da investida anterior. Chegaram ao cume as 17:30h. Foram 18 enfiadas com as graduações seguintes: IV, IV, IV, IV, VIIa, IV, VIsup, VIIIc (VIIa A2), IXa (VIIa A2), VIIIb, IXa, VIIb, VIIIa, VIIa, VIsup, VI, IV e IV. Essa foi a primeira repetição da via, já que duas tentativas anteriores de outras cordadas desistiram por motivos diversos. Um empolgante relato de uma dessas tentativas pode ser lido aqui. (17.09.10)

Veja o vídeo desta repetição da via:

E o vídeo dos conquistadores:

Abaixo veja o relato feito pelo escalador Silvio Neto e a galeria de fotos!

PLACE OF HAPINESS (Por Silvio Neto)

Quando um escalador de renome internacional abre uma via de qualidade em qualquer que seja o local do planeta, é certo que as informações a respeito chegarão aos quatro cantos do mundo. Quando Stefan Glowacz, com sua tenacidade e vitalidade infinita, passou pelo Brasil no inverno de 2009 não foi diferente. Numa equipe que também contava com Edmilson Padilha, Horacio Gratton, Klaus Fegler e Holger Heuber; o lendário campeão mundial conquistou a via “Place of Hapiness” na aresta norte da Pedra Riscada, o maior monolito do Brasil. O resultado foi uma dessas linhas Classe A. E como não podia deixar de ser as notícias pós-conquista logo chegaram aos confins do planeta, mais precisamente à Suíça, ou melhor dizendo, ao meu camarada suíço Martino. Foi ele o primeiro a botar lenha nessa fogueira, de fato ele propôs a própria fogueira. E onde há fogo… La fomos nós rumo à Pedra Riscada. Martino, eu, Daniel Araujo, Flavio Daflon e Fabio Muniz. Uma equipe grande para um grande intento!

A Pedra Riscada fica no município de São José do Divino a cerca de 120km de Governador Valadares, em Minas Gerais e a aproximadamente, 700km do Rio de Janeiro. De Divino até a base da parede são duas as opções de trajeto com distintos panoramas da montanha; ambos caminhos possuem cerca de 30km de estrada de terra. Essas estradas passam em meio a fazendas e currais; sendo possível observar o visual das muitas formações ao redor. Um verdadeiro mar de morros.

Em São José do Divino a atração maior é o virtuoso Edmilson Duarte. Nosso camarada Edmilson é o cara da cidade e merece um parágrafo a parte. Nascido e criado em Divino, Edmilson passou um período de 16 anos vivendo na América, como ele mesmo se refere aos EUA. Quando retornou trazia consigo um grande repertório de composições e músicas de qualidade. Logo vieram os cds gravados e fama internacional, afinal Divino é gringa, uai! É de lá que sai o maior fluxo de brasileiros rumo aos EUA, sendo assim reafirmo, Edmilson tem fama internacional; e se você não o conhece corre pro Google. De fala tranqüila, muitas em inglês, e sempre acompanhado de uma caninha, Edmilson é de fato o melhor cicerone e anfitrião que poderíamos imaginar. Foi um grande prazer a todos nós vir a conhecer este artista de grande potencial escondido entre as montanhas do Vale do Mucuri.

Na manhã seguinte a que chegamos em Divino nos encaminhamos à base da parede com a ajuda do amigo local Marcel, que mesmo passando um frio danado e ficando sem combustível para sua moto, foi incessantemente solícito e prestativo conosco, levando-nos até bem próximo do local que por fim nos instalamos.

Nossa equipe era grande, estávamos em cinco, logo algumas seriam as opções de ascensão. A decisão de como escalaríamos foi se esclarecendo conforme atrasávamos. Ao menos tínhamos cinco cabeças determinadas e um foco: mandar a via.

Place of Hapiness é uma via exigente. São 850m de rocha repartidos em 18 enfiadas em sua maioria cheias. A via em si divide-se em quatro partes. Um tramo inicial formado por quatro enfiadas bem semelhantes; todas na casa do IV, caracterizadas por um granito escuro não tão sólido. Na quinta enfiada, um lance isolado de VII e na seqüência um runout de quase 20m levam ao platô, ou a uma queda inesquecível com vista panorâmica do seu parceiro na parada e em um muito breve instante, você passando por ele. Acho que deve ser mais ou menos assim. Graças a Deus eu nem lembro!

Desta forma chega-se ao Platô do Rato, nome que demos ao platô que dá fim a primeira parte da via, onde um ratinho gorducho vivia perambulando quando caía a noite. A partir daí vem a segunda parte, e acredito eu, a parte mais demorada da via. É formada por três enfiadas, todas protegidas em móveis e raras chapeletas intermediando lances longos e bem comprometidos. A primeira das três enfiadas dá acesso ao grande diedro, parte central da via. A rocha neste setor é bem clara, e bem desconfiável. A ascensão das enfiadas que compõem o diedro, ambas cotadas em IX A2, tanto em artificial como em livre demandam tempo e meticulosidade por parte do guia. Ao fim desta parte abandone toda e qualquer proteção móvel que tenha levado e “faca na caveira!”, já que a partir de agora o trabalho é árduo, físico e psicológico.

A terceira parte da via é o crux. São cinco enfiadas sustenidas ligeiramente negativas, de fato o filé da via. Este trecho é uma aresta alaranjada onde há muitas opções de agarras, entretanto a maior exposição dos lances e agarras muitas delas por quebrar, elevam a concentração, se é que me fiz entender. Após essa surra sem dó, se ainda houver forças, alcançar o cume será uma questão de pura perseverança. O nível técnico cai gradativamente e as últimas enfiadas voltam a lembrar o início da via, isto é, granito preto, agarras quebradiças e escassez de proteções. Delicadeza e astúcia para escalar em agarras que se desfazem é a chave para o sucesso neste trecho final. Daí pro cume!

Do cume o visual é fantástico! São tantas as montanhas que podemos mirar ao redor… incrível! E lá em cima, curtindo o lindo visual avermelhado do pôr do sol, nós, a equipe toda reunida numa harmonia, numa engrenagem imprescindível para o êxito coletivo na escalada de grandes paredes. Primordial é o foco, e esse nós tínhamos. Estratégias são muitas, mas numa escalada a estratégia é que nem pênalti. Demorada ou ligeira, leve ou pesada, não importa. Estratégia bem feita é a que resulta em gol, e no nosso caso especificamente, em cume! Já dizia um desses boleiros filósofos: não existe gol feio; feio é não fazer gol!
O cume portanto era nosso foco, nosso gol, e lá nos encontrávamos após três dias naquela montanha. No primeiro dia iniciamos tarde, subimos ao máximo e descemos encordando as enfiadas mais complicadas. No segundo, descanso. E no terceiro dia base – cume – base, numa jornada de 21hs ininterruptas de atividade neste último dia. Puxado e cansativo é pouco!

Vale lembrar que a partida não acaba por aí. Os rapéis também tem seus cruxs. Atenção redobrada para as enfiadas em diagonal e ligeiramente negativas da parte central da via.

Para repetir a via o equipamento necessário são: 20 costuras, 2 jogos de friends incluindo micros e 1 jogo de stoppers incluindo os micros. Pitons também podem facilitar a primeira enfiada do diedro, apesar de não termos levado. Duas cordas são imprescindíveis aos rapéis, além de material de abandono para os mesmos. No mais, gana, sorte e uma equipe determinada como a nossa são fundamentais!

Para comer e ficar em São José do Divino: Pousada e Restaurante Colibri de Ouro. O anfitrião Domingos faz com que todos sintam-se em casa. Rango típico nota 10, cervejinha gelada e varandão para matar a leseira. Contato – Tel. (33) 3582-1403 ou (33) 8883-9727.

Para tudo e ainda mais em São José do Divino: Edmilson Duarte Contato – Tel. (33) 3582-1121 ou 8856-2111.

[nggallery id=37]

Apoio: EDELWEISS – VERTICALE.

Daniel Araújo (Rocks in Rio)
Fábio Muniz (Equinox)
Flavio Daflon (Companhia da Escalada, Equinox e Edelweiss)
Martino Singenberger (Verticale e Edelweiss)
Silvio Neto (Lá em Casa, Equinox e Osklen)

Fotos: Flavio Daflon, Silvio Neto e Daniel Araújo.

Via Franco Brasileira por Júlio Campanela

Os anos passam ligeiros, mas os sonhos permanecem até serem concretizados ou destruídos pelo tempo. A via Franco-Brasileira, na Pedra do Sino, em Teresópolis, era um deles que foi vivenciado com o Daflon, em agosto deste ano. Desde 2008 juntamos forças e saímos em busca de escala-la, ele não conhecia a face sudoeste do Sino e a exatamente dez anos eu não desfrutava daquele local que vivi intensamente 22 dias na conquista do Eclipse Oculto em agosto de 1999.

franco01Um inverno chuvoso, não era o esperado, mas foi o que aconteceu na temporada 2009, marcamos uma data para iniciar a expedição, ou melhor para esperar a chuva passar. Com todos os equipamentos e provisões prontos, permissão do parque Nacional da Serra dos Órgãos em mãos, ajuda de dois amigos (Léo e Ticano) para carregar os aproximadamente 70kg de carga até o início dos rapéis na grota, tudo perfeito, tivemos que adiar a saída devido as previsões de chuva e esperar por quatro dias mais. Mas no dia primeiro de agosto iniciamos a caminhada, sem a ajuda dos amigos que viajaram pra Salinas, mas agora com o Bruno Castelo Branco que depois de uma noitada feroz estava seis horas da manhã pronto e com muita disposição pra caminhar o dia inteiro conosco.

Depois de um longo dia de caminhada pesada, rapéis e equilíbrio no limo, chegamos a um platô no meio da grota, bom pra bivacar – relaxar as costas travadas de carregar tanto peso – e curtir o momento. No outro dia terminamos a nossa descida e chegamos na base da via Terra de Gigantes que nos levaria ao Platô do Escorpião, de onde segue a via Franco-Brasileira. Analisamos a linha e rapidamente aquela parede nos encheu de energia e vontade de iniciar a escalada. Coletamos 30 litros de água, organizamos o haulbag e partimos rumo ao platô em um trepa mato exótico, fendas e diedros e com nosso “terceiro integrante” – o haulbag – que prendia em tudo. A cada enfiada, a natureza exuberante nos oferecia uma dose de energia com aquele impressionante visual do Vale do Rio Soberbo com suas paredes imponentes. Assim chegamos à noite no platô e pra completar curtimos uma lua cheia.

franco brasileiraNo segundo dia de escalada acordamos quebrados da ralação intensa do dia anterior. O grande negativo acima de nossas cabeças nos chamava. Depois de valorizar o local e o nascer da manhã, lá estava eu pendurado num cliff em agarra natural, rumo a um totem duvidoso e com uma possível queda no platô que até pouco tempo me trazia conforto e segurança. O platô agora era um perigo real que incomodava o psicológico. Ao sair do cliff para um píton, este cedeu um pouco. Com cuidado, tranquilizei o cérebro e saí da roubada chegando a um diedro fino onde parei na base do grande negativo. A próxima enfiada, a sétima da via, foi guiada pelo Daflon com muita vontade e disposição em lances de cliff – buracos e agarras – e em trechos de rocha quebradiça. Ele parou na base de uma bela fenda que cortava o negativo para cima. Logo o dia passou e voltamos para o bivaque pra descansar o corpo sugado pelo vazio. À noite chuviscou, mas logo parou e no dia seguinte amanheceu nebuloso. Progredimos nas cordas fixas e comecei o dia em uma fenda perfeita – ou quase, devido a qualidade da rocha – que nos levou a base de um diedro, concluindo a oitava enfiada. A nona enfiada o Daflon guiou parte em furos de cliff – porque não se podia utilizar uma imensa laca solta à esquerda – e parte debaixo de uma fenda em horizontal pra direita, parando em um pequeno platô que trouxe grande conforto. Como restava luz do dia comecei a décima enfiada. A continuação da horizontal é visual e antes de escurecer voltamos para o bivaque para curtir a última noite no conforto do Platô do Escorpião, pois no outro dia iríamos sair com tudo para cima.

Franco-Brasileira-2Na manhã seguinte guindamos todo o equipo, água e comida pelos negativos e terminei a décima enfiada. A partir da décima primeira enfiada começou a faltar as chapeletas. Nós sabíamos disto e levamos algumas, mas isso fez com que a velocidade e a visualização da via diminuíssem. Depois de mais um dia bem vivido montamos o portledge e sentimos a imponência daquele local. A noite inteira o vento soprou constante nas nossas orelhas. No quinto dia desmontamos o bivaque e partimos com tudo em direção ao cume. Daflon guiou a penúltima enfiada e parou em um platô na base de um diedro que nos levou rapidamente ao fim da via. Com um belo por do sol como cenário terminamos energizados um sonho de tantos anos.

Agradeço o apoio da Grimp equipamentos e da Equinox por acreditarem em nossas habilidades, ao Bruno Castelo Branco que nos ajudou com muita disposição a carregar as pesadas mochilas, aos amigos e familiares que contribuíram na realização deste e de outros objetivos e à Deus por colocar em meu caminho amigos que vivem pra escalar e escalam pra viver.

A via Franco-Brasileira

Conquistadores: Alexandre Portela, Sérgio Tartari, Yanick Segneur e Serge Koening.

Em 1985, Portela e Tartari, há dois dias na parede, haviam conquistado as cinco primeiras enfiadas e chegaram ao Platô do Escorpião batendo apenas um grampo. Levavam um jogo e meio de friends rígidos, dois jogos de stoppers e copperheads. De madrugada, enquanto dormiam na base perceberam a chegada dos franceses Yanick, Serge e sua equipe. Os franceses queriam abrir uma nova via no Garrafão, mas a parede já havia sido conquistada por Roman Vogler, a via Crazy Muzungus. Então viraram suas atenções para o Sino onde estavam Portela e Tartari. Os brasileiros imaginaram que eles iriam conquistar uma nova via, mas para surpresa deles os franceses começaram a subir pelas cordas fixas que Portela e Tartari haviam instalado e na cara dura roubaram a via deles. Os brasileiros subiram até o platô e começaram uma discussão. A equipe francesa alegou que tinha patrocínio para conquistar uma via e que os brasileiros não tinham equipamentos apropriados para tal conquista. Por serem calmos e estarem em menor número, não houve uma briga maior. A reação deles foi conquistar uma fenda à direita de onde os franceses seguiam, assim começou a conquista da Terra de Gigantes, até hoje o big wall mais difícil do país.

Algumas semanas depois de os franceses terem terminado a via Franco-Brasileira, Portela e Tartari, fizeram a repetição mais rápida da via até hoje e usando os mesmos equipamentos com os quais os franceses disseram que eles não conseguiriam fazer. Em apenas quatro dias saíram do Rio, escalaram e voltaram. Dois anos depois voltaram para terminar a via Terra de Gigantes (A4), um big wall que se tornou mito na escalada brasileira.

Os franceses escreveram na Europa uma matéria intitulada King of Brasil, mas enfrentaram problemas éticos, depois que a revista Mountain publicou uma carta do André Ilha contando toda a história – Leia a carta!

Aproximação: deve-se subir a Pedra do Sino, aproximadamente quatro horas de caminhada, seguir em direção a travessia para Petrópolis e então descer a Grota do Inferno por cerca de duas horas e meia até a base. Na descida da grota há três rapéis e alguns lances de corda fixa. Descrição: a Franco-Brasileira pode ser dividida em três partes. A primeira até o Platô do Escorpião. São cinco enfiadas de trepa-mato e artificial. O reboque do haulbag é bastante trabalhoso. A segunda parte é bem negativa, nem molha se chover. São quatro enfiadas. A terceira e última parte é ligeiramente negativa. Nem todas as chapeletas estão no lugar. São outras cinco enfiadas.

Veja um vídeo da escalada na Galeria de Videos, as fotos na Galeria de Fotos e a carta escrita pelo escalador André Ilha, para a revista Mountain, a respeito da conquista desse big wall. Consulte também um croqui da via exclusivo, feito pelos escaladores Flavio Daflon e Júlio Campanela.