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Repetida a via Place of Happiness, 8º IXa, 850m  

Os cariocas Daniel Araújo, Fábio Muniz, Flavio Daflon, Martino Singenberger e Silvio Neto fizeram a primeira repetição da via Place Of Happiness, na Pedra Riscada, em São José do Divino - MG. Foram dois dias de escalada para superar os 850 metros desta via, que está cotada em IXa.

Place of Happiness foi aberta pelo paranaense Edmilson Padilha, pelo argentino Horácio Gratton e pelos alemães Houlger Heuber e Stefan Glowacz em 2009. Para quem não conhece Glowacz foi um dos pioneiros da escalada de grande dificuldade e um dos campeões do prestigiado Campeonato de Arco e tem repetido e aberto vias pelos sete continentes. Veja aqui a matéria e fotos no site da Companhia da Escalada e no site da RedBull, e um vídeo sobre a conquista da via Place of Happiness, na Pedra Riscada, em Minas Gerais.

Os cinco escaladores cariocas viajaram 700 km no sábado, dia 31 de julho para fazer a primeira repetição dessa belíssima via mineira.

No domingo começaram a escalar por volta das 10 da manhã. Subiram dez enfiadas, encoradaram as mais difíceis e desceram para dormir próximo a base. Na segunda descansaram. Na terça-feira começaram a escalar as 6:30h da manhã e as 9:30h alcançaram o ponto mais alto da investida anterior. Chegaram ao cume as 17:30h. Foram 18 enfiadas com as graduações seguintes: IV, IV, IV, IV, VIIa, IV, VIsup, VIIIc (VIIa A2), IXa (VIIa A2), VIIIb, IXa, VIIb, VIIIa, VIIa, VIsup, VI, IV e IV. Essa foi a primeira repetição da via, já que duas tentativas anteriores de outras cordadas desistiram por motivos diversos. Um empolgante relato de uma dessas tentativas pode ser lido aqui.

Veja abaixo o vídeo da repetição da via:

Repetição da via Place of Happiness from Companhia da Escalada on Vimeo.


Abaixo veja um relato feito pelo escalador Silvio Neto com muitas fotos!

PLACE OF HAPINESS
(Por Silvio Neto)

Clique nas fotos para ampliar.

Quando um escalador de renome internacional abre uma via de qualidade em qualquer que seja o local do planeta, é certo que as informações a respeito chegarão aos quatro cantos do mundo. Quando Stefan Glowacz, com sua tenacidade e vitalidade infinita, passou pelo Brasil no inverno de 2009 não foi diferente. Numa equipe que também contava com Edmilson Padilha, Horacio Gratton, Klaus Fegler e Holger Heuber; o lendário campeão mundial conquistou a via “Place of Hapiness” na aresta norte da Pedra Riscada, o maior monolito do Brasil. O resultado foi uma dessas linhas Classe A. E como não podia deixar de ser as notícias pós-conquista logo chegaram aos confins do planeta, mais precisamente à Suíça, ou melhor dizendo, ao meu camarada suíço Martino. Foi ele o primeiro a botar lenha nessa fogueira, de fato ele propôs a própria fogueira. E onde há fogo... La fomos nós rumo à Pedra Riscada. Martino, eu, Daniel Araujo, Flavio Daflon e Fabio Muniz. Uma equipe grande para um grande intento!

A Pedra Riscada fica no município de São José do Divino a cerca de 120km de Governador Valadares, em Minas Gerais e a aproximadamente, 700km do Rio de Janeiro. De Divino até a base da parede são duas as opções de trajeto com distintos panoramas da montanha; ambos caminhos possuem cerca de 30km de estrada de terra. Essas estradas passam em meio a fazendas e currais; sendo possível observar o visual das muitas formações ao redor. Um verdadeiro mar de morros.

Em São José do Divino a atração maior é o virtuoso Edmilson Duarte. Nosso camarada Edmilson é o cara da cidade e merece um parágrafo a parte. Nascido e criado em Divino, Edmilson passou um período de 16 anos vivendo na América, como ele mesmo se refere aos EUA. Quando retornou trazia consigo um grande repertório de composições e músicas de qualidade. Logo vieram os cds gravados e fama internacional, afinal Divino é gringa, uai! É de lá que sai o maior fluxo de brasileiros rumo aos EUA, sendo assim reafirmo, Edmilson tem fama internacional; e se você não o conhece corre pro Google. De fala tranqüila, muitas em inglês, e sempre acompanhado de uma caninha, Edmilson é de fato o melhor cicerone e anfitrião que poderíamos imaginar. Foi um grande prazer a todos nós vir a conhecer este artista de grande potencial escondido entre as montanhas do Vale do Mucuri.

Na manhã seguinte a que chegamos em Divino nos encaminhamos à base da parede com a ajuda do amigo local Marcel, que mesmo passando um frio danado e ficando sem combustível para sua moto, foi incessantemente solícito e prestativo conosco, levando-nos até bem próximo do local que por fim nos instalamos.

Nossa equipe era grande, estávamos em cinco, logo algumas seriam as opções de ascensão. A decisão de como escalaríamos foi se esclarecendo conforme atrasávamos. Ao menos tínhamos cinco cabeças determinadas e um foco: mandar a via.

Place of Hapiness é uma via exigente. São 850m de rocha repartidos em 18 enfiadas em sua maioria cheias. A via em si divide-se em quatro partes. Um tramo inicial formado por quatro enfiadas bem semelhantes; todas na casa do IV, caracterizadas por um granito escuro não tão sólido. Na quinta enfiada, um lance isolado de VII e na seqüência um runout de quase 20m levam ao platô, ou a uma queda inesquecível com vista panorâmica do seu parceiro na parada e em um muito breve instante, você passando por ele. Acho que deve ser mais ou menos assim. Graças a Deus eu nem lembro!

Desta forma chega-se ao Platô do Rato, nome que demos ao platô que dá fim a primeira parte da via, onde um ratinho gorducho vivia perambulando quando caía a noite. A partir daí vem a segunda parte, e acredito eu, a parte mais demorada da via. É formada por três enfiadas, todas protegidas em móveis e raras chapeletas intermediando lances longos e bem comprometidos. A primeira das três enfiadas dá acesso ao grande diedro, parte central da via. A rocha neste setor é bem clara, e bem desconfiável. A ascensão das enfiadas que compõem o diedro, ambas cotadas em IX A2, tanto em artificial como em livre demandam tempo e meticulosidade por parte do guia. Ao fim desta parte abandone toda e qualquer proteção móvel que tenha levado e "faca na caveira!", já que a partir de agora o trabalho é árduo, físico e psicológico.

A terceira parte da via é o crux. São cinco enfiadas sustenidas ligeiramente negativas, de fato o filé da via. Este trecho é uma aresta alaranjada onde há muitas opções de agarras, entretanto a maior exposição dos lances e agarras muitas delas por quebrar, elevam a concentração, se é que me fiz entender. Após essa surra sem dó, se ainda houver forças, alcançar o cume será uma questão de pura perseverança. O nível técnico cai gradativamente e as últimas enfiadas voltam a lembrar o início da via, isto é, granito preto, agarras quebradiças e escassez de proteções. Delicadeza e astúcia para escalar em agarras que se desfazem é a chave para o sucesso neste trecho final. Daí pro cume!

Do cume o visual é fantástico! São tantas as montanhas que podemos mirar ao redor... incrível! E lá em cima, curtindo o lindo visual avermelhado do pôr do sol, nós, a equipe toda reunida numa harmonia, numa engrenagem imprescindível para o êxito coletivo na escalada de grandes paredes. Primordial é o foco, e esse nós tínhamos. Estratégias são muitas, mas numa escalada a estratégia é que nem pênalti. Demorada ou ligeira, leve ou pesada, não importa. Estratégia bem feita é a que resulta em gol, e no nosso caso especificamente, em cume! Já dizia um desses boleiros filósofos: não existe gol feio; feio é não fazer gol!
O cume portanto era nosso foco, nosso gol, e lá nos encontrávamos após três dias naquela montanha. No primeiro dia iniciamos tarde, subimos ao máximo e descemos encordando as enfiadas mais complicadas. No segundo, descanso. E no terceiro dia base – cume – base, numa jornada de 21hs ininterruptas de atividade neste último dia. Puxado e cansativo é pouco!

Vale lembrar que a partida não acaba por aí. Os rapéis também tem seus cruxs. Atenção redobrada para as enfiadas em diagonal e ligeiramente negativas da parte central da via.

Para repetir a via o equipamento necessário são: 20 costuras, 2 jogos de friends incluindo micros e 1 jogo de stoppers incluindo os micros. Pitons também podem facilitar a primeira enfiada do diedro, apesar de não termos levado. Duas cordas são imprescindíveis aos rapéis, além de material de abandono para os mesmos. No mais, gana, sorte e uma equipe determinada como a nossa são fundamentais!

Para comer e ficar em São José do Divino: Pousada e Restaurante Colibri de Ouro. O anfitrião Domingos faz com que todos sintam-se em casa. Rango típico nota 10, cervejinha gelada e varandão para matar a leseira. Contato - Tel. (33) 3582-1403 ou (33) 8883-9727.

Para tudo e ainda mais em São José do Divino: Edmilson Duarte Contato - Tel. (33) 3582-1121 ou 8856-2111.

Apoio: EDELWEISS - VERTICALE.

Daniel Araújo (Rocks in Rio)
Fábio Muniz (Equinox)
Flavio Daflon (Companhia da Escalada, Equinox e Edelweiss)
Martino Singenberger (Verticale e Edelweiss)
Silvio Neto (Lá em Casa, Equinox e Osklen)

Fotos: Flavio Daflon, Silvio Neto e Daniel Araújo.

 
     
 
     
 
     
 
     
 
     
 
     
     
     
 
     
 
     
 
     
 
     
     
 
     
 
     
     
     
 
     
 
   
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Criação e fotos: Flavio e Cintia Daflon. Reprodução de fotos e textos, somente com autorização prévia.