| “Aprendiz, se escuta se esquece, se ve acredita, mas se sonha tem.”
A via Supercanaleta vista da base. Foto Juan. |
Chalten... festa no Aires Patagônicos, sábado de madrugada. Na rua ninguém a essa hora. Quem não esta dormindo está por aí bebendo e dançando. Eu tomando antibiótico, por que congelei o dedo na montanha e sem a chave de casa, penso seriamente na possibilidade de mais um bivaque ao lado do aquecedor.
A temporada 2009/2010 começou com um período de tempo bom em dezembro e depois só na última semana de fevereiro e primeira semana de março, a montanha esteve novamente em condições para a escalada em rocha. Diante dos espíritos da montanha quem primeiro chora sou eu, pois nem sempre que o tempo está bom se escala.
A tempestade e talvez o sopro da violência divina, as avalanches, são manifestações da sua generosidade.
Vinte e algo de fevereiro “São NOAA” (site de previsão do tempo) avisa e nós escutamos.
Supercanaleta... nove horas de caminhada para a base, dois bivaques na parede um na décima segunda enfiada e outro no final das dificuldades. Com Vitor, um argentino de Bariloche, sujeito de poucas palavras, cara de índio Mapuche, mais resistente ao frio que um urso polar,
começamos a escalar a meia-noite. Às 7 da manhã paramos no final da canaleta para comermos e nos hidratar. Acima uma enfiada de rocha e um voo onde perco uma piqueta e todos os friends do lado direito. O tornozelo reclama um pouco do episódio e o dedo mínimo da mão direita apresenta princípio de congelamento por escalar com ferramentas inadequadas.
O Vitor segue uma cascata, eu uma outra mais fácil. A canaleta vai sumindo... duas enfiadas de misto para a direita um rapel curto e uma rampa de neve. Três enfiadas mais e encontramos o Juan com o Índio, escaladores argentinos já instalados para o bivaque. Eles observam a cordada que nos passou no final da canaleta. Chegam onde estamos se juntam com outra cordada que vinha atrás e descem.
Noite fria. No outro dia seguimos em travessia para a esquerda, chaminés cheias de escarcho e duas passadas de escalada em rocha em que me agarro na corda da cordada da frente. Paramos para descansar faltando quatro enfiadas para terminar o dia. Decidimos que cada um guia uma. Faço uma fissura de uns 20 metros em artificial, o Vitor uma travessia para a esquerda, o Índio uma chaminé cheia de gelo e o Juan passa um tempo cavando uma chaminé de uns 10 metros. Terminando de cavar, chegamos ao filo. Uma enfiada pelo outro lado do filo, gancheando com as piquetas, um rapel e cai a noite. Cada um tombado para um lado. Chalten é a única luz na vastidão.
Seis enfiadas mais e cume as 11 horas. Por um momento tiro os óculos e uma pedra de gelo o acerta, ainda vejo como cai lentamente... Que beleza! Tornozelo doendo, dedo congelado e agora com o perigo de ficar cego.
Pra baixo o Índio abre todos os rapeis da parede e o Vitor os rapeis da brecha, por duas vezes as cordas prendem e as cortamos. Um pulo na rimaya e pronto... chão a uma da manhã. No amanhecer saímos do glaciar.
Chalten se pinta de vermelho, uma multidão de turistas observa da margem do lago de Los Três. Como mantimento, um resto de wisky que venho bebendo desde a rimaya. Em Rio Blanco, Vitor vai na frente e eu sigo sozinho, bebendo, escutando música e dormindo a cada tanto. Sonho com o calor de casa e acordo no bosque, choro de gratidão aos meus pais.
Em Chalten, direto pro hospital, e festa com os amigos. No dedo agora uma cicatriz, lembrança que o tempo passa e as feridas curam.
Boas escaladas e que a força esteja com vocês!
Nicolau Araujo
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| Final da fissura e início da travessia a esquerda. Foto: Juan. |
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Chaminé guiada pelo Índio. Foto Victor. |
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| Amanhecer do segundo dia. Foto Nicolau Araujo. |
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| Bernardo e Kika na caminhada. Foto Nicolau Araujo. |
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| Vista do cume da escalada. Foto Nicolau Araujo. |
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| Cume: Nicolau e Juan. Foto: Victor. |
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