Saem de cena os cabos de aço
No Brasil, na década de 1950, o equipamento ainda não havia evoluído o bastante para se escalar usando as pequenas agarras e aderência de nossas paredes como pontos de apoio. Assim, os escaladores concentravam seus esforços em subir por chaminés. Quando era necessário subir por uma face sem grandes fendas, a alternativa era fixar cabos de aço com a ajuda de troncos de madeira, da mesma maneira como foi feito na conquista do Dedo de Deus, da Agulha do Diabo e tantas outras montanhas.
Foi assim, com bastante trabalho, que foram abertas as terceira, quarta e quinta vias no Pão de Açúcar: o Paredão Cepi, em 1952, pelo extinto Clube Excursionista Pico do Itatiaia; a chaminé Gallotti, em 1954, por membros do Centro Excursionista Carioca; e o Paredão Secundo Costa Neto, em 1957, também pelo Carioca, após 19 investidas.
Foi somente a partir da segunda metade da década de 1960 que os cabos de aço caíram em desuso e foram gradativamente removidos destas e de outras vias. Isso aconteceu devido a um avanço nas técnicas de escalada utilizadas no país, já que as técnicas européias estavam sendo cada vez mais difundidas em livros, e também pela vinda de escaladores estrangeiros, como o francês Lionel Terray, que visitou o Rio de Janeiro.
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Além disso, houve significativas mudanças nos equipamentos de escalada. A pesada bota cardada foi sendo substituída aos poucos por calçados leves, que permitiam a realização de lances mais técnicos, como a alpargatas de sola de sisal. A corda de sisal foi também vagarosamente sendo substituída pela corda de náilon, e em pouco tempo o baudrier surgiria. Hoje em dia, a chaminé Gallotti e o Secundo não possuem mais cabos de aço, sendo que o último trecho foi retirado na década de 1990. Hoje, o grau destas é 5º VIsup e 5º VIIa, respectivamente.
Uma escalada que marca bem este período foi a conquista do Paredão IV Centenário (4º IVsup, 170m), em 1965, no Morro da Babilônia, por Giuseppe Pellegrini, Carlos Carrozzino, José Luiz Barbosa, Cláudio Vieira de Castro e Etzel Von Stockert, todos do Cerj. Apesar de ter sido cabeada para permitir uma ascensão mais rápida aos futuros escaladores, ela foi conquistada com cordas de náilon e em livre, ainda que com apoio nos grampos, pois naquela época não havia a preocupação de não se pisar ou segurar nos grampos. Antes mesmo do final da década os próprios conquistadores removeram os cabos de aço que havia. O IV Centenário é um bom exemplo da transição do uso de cabos para a escalada em livre nas paredes com agarras. Ela marca também o início do que foi chamado na época de “rochedismo”, a escalada de paredes sem o objetivo de se alcançar o cume. Além disso foi a primeira via do Babilônia, parede que hoje conta com mais de 30 vias.
A multiplicação das vias
A partir dos anos 1970 houve uma multiplicação no número de vias conquistadas no Rio de Janeiro, consequência do aumento do número de praticantes e de escaladores de bom nível técnico. Contribuiu para isso também a consolidação do uso da corda de náilon, dos mosquetões de duralumínio e do baudrier. Para se ter uma idéia, até o fim da década de 1960, a Urca contava com apenas nove vias. Dez anos depois, elas já eram quase 50.
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Dentre essas novas vias uma chamou bastante atenção. Foi o Lagartão, conquistado no Totem, na face sul do Pão de Açúcar, em 1972, por Alex Pereira, George White, Jean Pierre Von deir Weid e Luis Bevilacqua, todos do Cec. Seguindo por 300 metros uma linha com fendas, negativos, aderência e delicados trechos em agarras, esta escalada possuía um grau de dificuldade técnica extraordinário para a época: sexto grau (hoje ela está graduada em 6º VIIa A1/VIIc). Durante muitos anos, o Lagartão foi considerada uma das vias mais difíceis do Brasil e se tornou um mito entre os escaladores, tendo poucas repetições até o final dos anos 1970, sendo raríssimas à vista.
A via que rivalizava com o Lagartão no quesito dificuldade era a Foca, no Espírito Santo, uma conquista do carioca Rodolfo Chermont, escalador muito habilidoso e extremamente arrojado. Ele também é conquistador da via Patrick White, no Irmão Maior do Leblon, e da C-100, na Pedra da Gávea, que era toda protegida com grampos de ¼ de polegada. Ambas estavam entre as mais difíceis da época. Outra via aberta neste período, e que se tornaria uma clássica, foi a Leste do Pico Maior de Salinas, em Nova Friburgo (5º V A1). Com 700 metros de extensão, era a maior via até então, sendo conquistada por Waldemar Guimarães, Valdinar dos Santos, José Garrido e Guilherme Menezes, em 1974.
Mais ou menos no mesmo ano em que começaram a chegar ao Brasil as primeiras sapatilhas, em 1978, chegaram também as primeiras peças para proteção móvel, os nuts. Um bom exemplo da utilização deles foi na conquista da Fissura Tropical, em 1979 (4º VIsup), no Morro da Babilônia, por Antônio Carlos Magalhães e José Lozada. São 30 metros de fissura toda protegida em móvel, exceto por um grampo no trecho inicial de agarras. Nos anos seguintes, numerosas vias com fendas seriam conquistadas com essas peças “mágicas”. (continua...) |
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