O Dedo de Deus
O dia 8 de abril de 1912, no entanto, marcou definitivamente o início do montanhismo no Brasil, exatamente como a ascensão do Mont Blanc havia decretado o início do alpinismo, quase 126 anos antes. Neste dia, um grupo de teresopolitanos chegou ao cume do Dedo de Deus (1.675m), na Serra dos Órgãos, em Teresópolis. Antes, alemães já haviam tentado escalar a montanha, mas foram vencidos pelo difícil acesso e pelas diferenças em relação ao tipo de rocha a que estavam acostumados na Europa. Este fracasso e a presunçosa afirmação posterior dos alemães, de que, se eles não conseguiram conquistar o Dedo de Deus, ninguém mais conseguiria, foi o que motivou José Teixeira Guimarães a escalar a montanha. Ferreiro pernambucano radicado em Teresópolis, ele foi acompanhado na empreitada por Raul Carneiro, um caçador local que serviu de guia aos alemães pelas matas da serra, e os irmãos Alexandre, Américo e Acácio de Oliveira.
Foram ao todo sete dias acampados na base da montanha. Para vencê-la, Teixeira e seus companheiros fixaram grampos como proteções no granito, além de grossas varas de bambu, munidas de degraus, para vencer os trechos mais lisos da parede. Também subiam nos ombros uns dos outros para conseguir ganhar altura. Por sorte, muitos trechos da via de conquista contam com chaminés, o que facilita a ascensão.
Foi assim, com muita criatividade e suor, que eles conseguiram atingir o cume, sendo recebidos depois como heróis e com muita festa em Teresópolis. Até mesmo o então presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca, tomou conhecimento do feito e mandou um telegrama de congratulações. Foram necessários quase 20 anos para que o Dedo de Deus voltasse a ser escalado. Porém, antes disso, em 1919, houve um segundo fato de extrema importância para o montanhismo nacional: a fundação do primeiro clube excursionista da América do Sul, o Centro Excursionista Brasileiro (Ceb), no Rio de Janeiro.
Os três últimos grandes problemas
Na Europa, na primeira metade do século XX, tem início uma segunda época de ouro do montanhismo, desta vez centrada na verticalidade. Com a popularização do alpinismo - nesta época somente o Club Alpin Français já contava com cerca de 30 mil sócios - e com os principais cumes já conquistados, começou uma busca pela grande dificuldade. E nada representava melhor a grande dificuldade do que três faces nortes européias: a do Matterhorn (4.478m), uma das montanhas mais impressionantes e bonitas dos Alpes; a das Grandes Jorasses (4.208m), no maciço do Mont Blanc, uma muralha que, vista de frente, tem um aspecto imponente, com 2.000m de largura e 1.200m de altura; e a mais temida de todas, a face norte do Eiger (3.970m), com um desnível da base ao cume de 1.800 metros de rocha quebradiça.
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As condições de uma face norte são bastante diferentes das condições de uma face sul. No hemisfério norte, por não receberem a luz direta do sol, elas são mais frias e acumulam mais gelo. Por isso, essas imensas paredes eram conhecidas como os três últimos grandes problemas dos Alpes. Elas foram vencidas uma a uma, antes do início da Segunda Guerra Mundial: O Matterhorn, em 1931; o Esporão Croz, nas Grands Jorasses, em 1935; e a Face Norte do Eiger, em 1938. Os riscos eram grandes e muitos acidentes aconteceram. Somente na face norte do Eiger, entre 1935 e 1977, 43 homens perderam a vida.
Ainda em 1938, entre os dias 4 e 6 de agosto, o italiano Ricardo Cassin, abriu uma das via mais míticas do alpinismo, o Esporão Walker, com 1.200m de extensão, na face norte das Grands Jorasses. Cassin era um dos melhores escaladores de seu tempo, tendo aberto também vias em duas impressionantes faces nortes, na Ovest di Lavaredo, nas Dolomitas, Itália, em 1935, e no Piz Badile, Suíça, em 1937. Esta última ele repetiu pela terceira vez em 1987, com 78 anos de idade. A Walker foi a última grande via aberta antes da Segunda Guerra Mundial e marcou o início de uma nova era.
O período entre guerras foi marcado por um forte nacionalismo. A Itália havia ganho a Walker e o Badile, a Alemanha, o Eiger, Matterhorn e o Croz, enquanto o Dru era dos franceses. Inclusive os alemães Anderl Heckmair, Henrich Harrer e Ludwing Vörg, conquistadores da face norte do Eiger, juntamente com o austríaco Fritz Kasparek, foram recebidos e condecorados por Hitler, como forma de propaganda nazista. Mas foi neste período também que surgiram algumas inovações nos equipamentos, como a sola Vibram. Pensada inicialmente para ser usada com esquis, acabou revolucionando a escalada ao mudar a postura do escalador, permitindo confiar nas pernas. (continua...) |
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